Sábado, 9 de Dezembro de 2006

Em Ti

O sabor da tua boca e a cor da tua pele,

pele,boca, fruta minha destes dias velozes,

diz-me, sempre estiveram contigo

por anos e viagens e por luas e sóis

e terra e pranto e chuva e alegria,

ou só agora, só agora

brotam das tuas raízes

como a água que à terra seca traz

germinações de mim desconhecidas

ou aos lábios do cântaro esquecido

na água chega o sabor da terra?

Não sei, não mo digas, tu não sabes.

Ninguém sabe estas coisas.

Mas, aproximando os meus sentidos todos

da luz da tua pele, desapareces,

fundes-te como o ácido

aroma dum fruto

e o calor dum caminho,

o cheiro do milho debulhado,

a madressilva da tarde pura,

os nomes da terra poeirenta,

o infinito perfume da pátria:

magnólia e matagal, sangue e farinha,

galope de cavalos,

a lua poeirenta das aldeias,

o pão recém-nascido:

ai, tudo o que há na tua pele volta à minha boca,

volta ao meu coração, volta ao meu corpo,

e volto a ser contigo

a terra que tu és:

tu és em mim profunda primavera:

volto a saber em ti como germino.

Pablo Neruda, Os Versos do Capitão

 

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publicado por M. Belo às 18:31
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